Dias atrás faleceu um amigo muito querido. Foi ele quem me ensinou a tocar
violão em público. Eu era muito tímida, não tinha desenvoltura. Enfim, ele
faleceu, e vieram à minha memória todas as músicas, ritmos e notas musicais que aprendi
com ele. Foi graças a ele que tomei coragem de tocar na Igreja, mesmo sabendo pouco.
Boas lembranças, bons frutos.
Passou mais um pouquinho e faleceu outro amigo muito querido da nossa
família, aquele que, nos momentos difíceis, era o único que estava lá. Sempre
que acontecia de a gente cair num poço sem fundo, era ele quem nos visitava,
sempre presente. Era marceneiro, fez muitos móveis da minha cozinha. Ele
aparecia do nada, sentava-se para fumar seu cigarrinho, tomava um café, não
perguntava nada e logo ia embora. Só vinha ser presença. Faleceu, e todas essas
lembranças me vieram à tona.
Em seguida, faleceu um primo, amiguinho de infância, e aquelas lembranças
felizes me vieram à memória: as viagens que eu fazia com minha mãe nos meses de
férias; era sempre tudo muito divertido.
Em seguida, faleceu um padre, e logo o padre que me ensinou a fé que eu não
conhecia. Quantas coisas aprendi com ele! Dariam um livro! Aí tive que
processar a memória por muitos dias.
Hoje faleceu outro primo, mais ou menos da minha idade, querido amiguinho de infância. Tantas lembranças!
Brincadeiras à beira do rio, jogo de bola no campinho…
Cada uma dessas pessoas dividiu comigo uma parte de sua vida; cada uma
contribuiu de alguma forma para construir a pessoa que sou hoje. Cada uma delas
teve um selo de memória que, em certo momento, foi registrado e colado em mim.
Qual é a sensação que tenho neste momento?
Quando essas pessoas falecem e todas essas lembranças me vêm à tona, a sensação que tenho é que, ali mesmo, durante o sepultamento, cada selo colado em mim naturalmente se desprende, se solta e desaparece no tempo. Ali mesmo, junto com aquela pessoa, ficam sepultadas as memórias e, com o vento, dispersam-se os registros, deixando as marcas de sua passagem por minha vida.
Se for assim, para onde vão esses selos? Será que os falecidos levam esses registros
com eles?
Então me dou conta de que muitos desses selos já se desprenderam de mim — de
pais, irmãos, primos, amigos, professores, colegas de trabalho, vizinhos… — e
que vou ficando una com minha essência. Só eu.
E eles? Desapareceram no passado ou foram transportados para o futuro?
Olho para frente e percebo que caminho na mesma trilha deles; ou seja, irei reencontrá-los um dia? Não falo isso como argumento científico, teológico ou
filosófico, mas como aquilo que realmente sinto neste momento. Eu, que ainda
sobrevivo aos que foram, concluo que somos imortais e que há um futuro
magnífico à nossa espera. Não tem como ser diferente!
Como será que estarão? Qual será a sua fisionomia? De alegria? De
leveza? Ou de pesar?
E então, já pensando naquelas pessoas que só foram pedras de tropeço nesta
vida, que só causaram confusão, discórdias e desuniões, será que estas estarão
na mesma alegria daquelas? Desfrutando o mesmo ambiente, o mesmo regozijo? Sim,
é essa palavrinha mesmo: regozijo! Deve ser este o estado daqueles que deixaram
bons registros em mim.
O amor é impalpável, assim como a alma. Então, amor e alma são eternos. Devem perdurar para sempre. O ódio também é impalpável. Então, faz diferença depois da morte o amar ou odiar? Não tenho dúvidas.
Por fim, fico curiosa por saber qual será o propósito que nos aguarda nessa nova fase da vida. Deve haver. Bom, só sei que, por ora, eu quero deixar muitos selos de amor colados nas almas de todos com
quem convivo aqui, para que, quando tiver subido de fase e reencontrar um por um, poder agradecer e viver a nova vida, com seus novos propósitos. Sejam quais forem, devem ser dos melhores!
Gente, o que sinto agora é esperança! Um não sei o quê vibrando alegre dentro de mim, um pressentimento de que tudo isso deve ser muito, muito, mas muito bom! Alguém até poderia dizer: "Você não perde por esperar". Sim, eu espero confiante, plantando registros de amor por aí. Um dia, chega.
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